Qual o significado da cruz como símbolo cristão?

Denise Alves
Revisão por Denise Alves
Mestre em Literatura e formação em Teologia e Grego Bíblico

O significado da cruz no Cristianismo remete à fé em Jesus Cristo crucificado. A cruz tornou-se num emblema universalmente aceito entre os cristãos pois aponta diretamente para Jesus Cristo e Sua obra de redenção. É surpreendente a escolha da cruz como símbolo da fé cristã, dado ao horror que ela representava para o mundo antigo. Mas por causa de Jesus a cruz passou a significar graça, salvação, perdão e reconciliação com Deus.

Qual o significado da Cruz de Cristo?

Cruz

A cruz é usada para comemorar (homenagear e relembrar) a morte sacrificial de Jesus Cristo. A cruz de Cristo representa a realidade mais profunda da Sua graça sublime. Ela anuncia de alguma forma o próprio Cristo, pois numa posição entre a terra e céu, Ele tornou-se no eixo central, no único Mediador capaz de unir homens a Deus.

Parece loucura (1 Coríntios 1:18), mas a cruz é central na compreensão do Evangelho de Cristo. Ela é a chave para descobrirmos mistérios escondidos no amor e justiça de Deus, na corrupção (na nossa natureza pecaminosa) e no sofrimento (causado pela punição e condenação).

Jesus sofreu a punição que os nossos pecados mereciam, na cruz.

As Escrituras Sagradas já haviam revelado que o Messias haveria de padecer antes da Sua glória (Isaías 53; Salmos 22, 69 e 31; e outras passagens), e Jesus de livre vontade cumpriu o propósito do Pai, com a finalidade de salvar os pecadores. Apesar de toda Sua glória, poder (mais forte do que a morte), Jesus fez-se pecado e recebeu o sofrimento da punição como salário, em nosso lugar (Romanos 6:23). Toda missão de Cristo cumpriu-se na cruz.

Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus.

2 Coríntios 5:21

Deus colocou a causa do veneno do mundo sobre Seu próprio Filho, ao levantá-Lo na cruz. Na cruz foi imputada a Jesus a culpa pelos nossos pecados, assim também como a justiça de Deus sobre os crentes. Jesus foi feito maldito (Gálatas 3:30) para nos tornar aceitáveis perante Deus.

Desse modo, toda ira, punição, condenação, sofrimento e morte só poderão ser curados se olharmos com fé para Cristo crucificado. À semelhança da haste com uma serpente feita por Moisés para cura do povo (Números 21), precisamos olhar olhar para o Autor e consumador da nossa fé para sermos salvos (Isaías 45:22).

A cruz como símbolo de vergonha, condenação e morte

A cruz parece ter sido inventada pelos persas "bárbaros", muito antes de ter sido adotada pelos gregos e romanos como meio cruel de execução. De modo geral, a cruz como instrumento de tortura, representa morte e condenação.

Durante séculos (entre séc. 6 a.C e 4 d.C) a cruz foi utilizada como instrumento de tortura e exposição ao vexame de criminosos. O condenado tinha que levar a sua própria cruz, isto é, o marco transversal até o lugar onde a viga vertical estava fixada. No processo da crucificação, o condenado era pregado com estacas ou pregos nas mãos e nos pés, e, ficava ali, visível a todos, agonizando lentamente com dor, asfixia, até a parada cardíaca.

Na crucificação, a morte é atrasada durante dias (de 1 a 6 dias), até que a vítima sofresse a tortura máxima por sua culpa. Suspenso em agonia, sentindo fome e sede, sofrendo perda de sangue, ausência total de conforto, sentindo terríveis convulsões de dor. Era assim os relatos de execução por crucificação.

Durante o império romano, os criminosos sem posição social (como escravos ou estrangeiros) que cometessem crimes graves como assassinatos, rebeliões ou outros delitos sérios contra o império, deveriam ser crucificados. Os cidadãos romanos eram isentos de tal condenação tamanha a sua crueldade, tormento e repugnância.

O madeiro no Antigo Testamento

No contexto judaico do Antigo Testamento, eram considerados malditos todos que eram pregados no madeiro. Para os judeus não havia distinção entre cruz e "madeiro". Tanto o crucificado como o enforcado eram considerados malditos (Deuteronômio 21:22-23). O réu suspenso no madeiro era exposto como alguém que não merecia nem a terra nem o céu. Era tido como um maldito desprezível, numa haste à vista de todos como sinal de punição, condenação e humilhação horrível.

Depois da crucificação de Jesus, a cruz passa a ser identificada pelos cristãos como símbolo da paixão e entrega incondicional do Filho de Deus. Ele assumiu a posição de maldição e pecado de todos os homens que caminham sem Deus. Na cruz, Jesus foi condenado para que todos os crentes possam ser salvos, pela fé. crueldade

Os símbolos no Cristianismo

É comum as religiões e ideologias adotarem algum símbolo visual, que expressam aspectos centrais de sua história ou crença. A flor de lótus é simolo do budismo, a suástica do hinduísmo (adotado também pela ideologia nazista), a estrela de Davi simboliza o judaísmo. No Cristianismo vemos alguns símbolos extraídos de referências bíblicas.

Nos Evangelhos vemos diversos símbolos figurativos do Reino de Deus exemplificados por Jesus:

  • O pão e o vinho
  • O Batismo
  • O cordeiro de Deus
  • A Videira e o Agricultor
  • O Pastor das ovelhas
  • A luz do mundo
  • O sal da terra
  • A água da vida
  • A Palavra (verbo vivo)
  • e outros

A a cruz, como forma de identificação, não foi a primeira marca representativa dos cristãos. No princípio ela teve de ser evitada devido a sua associação direta com Cristo, ou com um criminoso comum. A crucificação continuava sendo um dos tipos de execução mais comuns no império romano no mesmo período de expansão do Cristianismo. Por isso, os cristãos evitavam ostentar simbolos ou slogans explícitos, dada a grande perseguição que sofriam nos primeiros séculos.

Historiadores relatam sobre imagens sutis e evasivas dos cristãos perseguidos, nas parede e tetos de seus esconderijos:

  • Pavão (diziam simbolizar imortalidade)
  • Pomba (símbolo bíblico do Espírito Santo)
  • Louro de atletas (símbolo da vitória, figura dos seguidores em busca do prêmio da soberana vocação)
  • Peixe -"ichthys" (acrônimo para "Jesus Cristo Filho de Deus Salvador" - Iesus Christos Theo Huios Soter)

Durante o segundo século, os cristãos perseguidos parecem ter optado por por pintar histórias bíblicas que simbolizavam a redenção de Cristo, mas de uma forma não incriminadora:

  • a arca de Noé
  • Abraão sacrificando o cordeiro no lugar de Isaque
  • Jonas vomitado pelo peixe
  • um pastor carregando uma ovelha
  • batismos
  • e outros.

Como marca mais simples, um emblema cristão deveria falar de Jesus. Apesar de o peixe continuar vinculado (por causa do acróstico), não permaneceu como símbolo cristão porque não denotava nenhum significado visual importante. Tinha de ser um símbolo que fosse central para a compreensão e que tivesse Jesus, o Salvador.

Os Símbolos da cruz

Uma simples cruz foi escolhida. Mas, seu significado vai além do que dois braços dispostos sobre um eixo vertical entre a terra e o céu podem representar. A cruz de Cristo tem um significado muito mais profundo. Jesus morreu levando os pecados do Seu povo, sofrendo o castigo divino pelas transgressões de todos eles. Na cruz Ele sofreu o abandono e a ira do Pai, sendo ferido e moído, para que todo o que crê receba perdão e salvação.

A cruz como emblema de renúncia e morte da velha natureza

Na Bíblia, também encontramos referências da cruz como metáfora de renúncia, morte dos pecados e compromisso com Deus. Em Seus discursos Jesus já fazia alusão à cruz com esse sentido (Mateus 16:24). Em diversas passagens do Novo Testamento há advertências aos crentes a se considerarem mortos para o mundo e para si mesmos e vivos para Deus (Mateus 10:38-39, Romanos 6:10-11 e Colossenses 3:3-5).

Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.
Gálatas 2:20

Sinal da Cruz

A partir do segundo século, os cristãos perseguidos começaram a usar o sinal da cruz, para além de símbolo visual (desenhos, figuras e pinturas). Começaram também a fazer o sinal da cruz em si mesmos e nos outros. Originalmente, esse ato teve a finalidade de identificar e separar (santificar) cada ato como se fosse para Cristo.

Essa prática tornou-se um simples hábito, uma forma ritual presente nos batismos, na unção de ministros, extrema unção, orações, etc. Os fieis imitavam o papado, adotando o sinal como um hábito de superstição, buscando proteção contra o mal.

Contudo, a Bíblia nunca mencionou tal prática nem a Igreja de Cristo na época dos apóstolos, jamais reconheceu tal sinal. Mesmo assim, o sinal da cruz, como forma ritual, ainda é observado por cristãos da tradição católica romana e outros segmentos.

Contudo, o sinal da cruz é apenas um acréscimo institucional, uma invenção humana. Essa prática foi desencorajada por muitos pais da Igreja, antes e depois da Reforma protestante, pois não é bíblica.

O crucifixo

O crucifixo é a uma cruz contendo uma imagem de Cristo. Esse uso tanto em formato visual como esculturas parece ter surgido somente a partir do sexto século. Antes disso, não era comum nem recomendado pelos apóstolos e primeiros cristãos. A Igreja primitiva buscava manter os fundamentos já solidificados (de não se fabricar imagens por ex. - Êxodo 20:4-5) evitando adicionar acréscimos aos ensinamentos bíblicos.

Originalmente, o crucifixo foi idealizado para representar visualmente o sacrifício de Jesus, uma vez que, a maioria dos cristãos não tinha acesso às Escrituras Sagradas (nem sabiam ler). Assim, o crucifixo servia como um suporte pedagógico para ensinar ao povo, através da figura visual que remetia a morte do Senhor.

O perigo, mais uma vez, era a superstição e idolatria (veneração e adoração) crescente a partir dessas imagens. Muitos passaram a fazer uso do crucifixo como amuleto espiritual ou escudo de proteção, o que não é aconselhado biblicamente. Outro grave problema é o esquecimento de que Cristo ressuscitou, a Sua Cruz está vazia! Algumas religiões ainda usam o crucifixo como amuleto protetor, mas a Bíblia rejeita tais crendices. Os cristãos devem evitá-los.

A mensagem da cruz

Imagem de uma cruz - Refrão da música Mensagem da Cruz

A cruz, como símbolo cristão, traduz uma mensagem que remete ao alto preço pago na Cruz. Deus veio ao mundo na pessoa de Seu Filho e derramou a Sua vida por nós. Essa é uma mensagem que deve gerar transformação, entrega e nova vida! Morte para o pecado e um viver renovado para Cristo. Afinal trata-se de uma mensagem de vitória de Jesus Cristo sobre a morte e o pecado.

Na cruz, Jesus tomou o nosso lugar de condenação (Romanos 3:23), sofreu a culpa e a ira, mesmo sendo inocente. Ele pagou o preço, sofrendo o castigo e derramando seu sangue por nós. Assim, O Senhor venceu o mal e toda acusação do inimigo, Ele ressuscitou para trazer redenção à humanidade.

No meio cristão é conhecido o Hino 291 da Harpa Cristã, no original: "Rude Cruz", que resume um pouco a mensagem que este precioso símbolo transmite ao povo de Deus:

Hino - A Mensagem da Cruz (Rude Cruz)

Rude cruz se erigiu
Dela o dia fugiu
Como emblema de vergonha e dor
Mas contemplo essa cruz
Porque nela Jesus
Deu a vida por mim, pecador

Sim, eu amo a mensagem da cruz
'Té morrer eu a vou proclamar
Levarei eu também minha cruz
'Té por uma coroa trocar

Desde a glória dos céus
O Cordeiro de Deus
Ao calvário humilhante baixou
Essa cruz tem pra mim
Atrativos sem fim
Porque nela Jesus me salvou

Nesta cruz padeceu
E por mim já morreu
Meu Jesus, para dar-me perdão
E eu me alegro na cruz
Dela vem graça e luz
Para minha santificação

Eu aqui com Jesus
A vergonha da cruz
Quero sempre levar e sofrer
Cristo vem me buscar
E com Ele, no lar
Uma parte da glória hei de ter

Letra de George Bennard
Titulo original: The Old Rugged Cross (Rude Cruz)

Quando lembramos da cruz de Cristo, nossa fé e esperança são avivadas, pois foi nela que Jesus nos salvou. Ele sofreu a nossa condenação (Romanos 8:1) mas ressuscitou e vivo está! Por isso, mais do que horrenda, a cruz pode ser para nós motivo de glória, como foi para o apóstolo Paulo (Gálatas 6:14).

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Denise Alves
Revisão por Denise Alves
Licenciada em Letras e Pedagogia, mestrado em Literatura e formação em Teologia e Grego Bíblico.